sábado, 17 de março de 2012

Gestalt Mulher




Estranha e misteriosa combinação, esta entre o significante gestalt e esta experência que todas nós vivenciamos: de sermos mulheres.

Gestalt, de sentidos controversos, mil versões, sem sentido, abertas, querendo realizar-se, um nada, um todo, enfim a própria ambiguidade, mil possibilidades.

E mulher, quem ousa definir? Pois, como uma gestalt, a mulher é um todo de indivisão, porém aberto, não totalitário, generoso. Como uma gestalt, se realimenta de suas entranhas, corpo habitual em carne viva se atualizando a cada momento em novas criações, fazendo cultura, transformando.

Tal como uma gestalt, a experiência de ser mulher se desdobra em pelo menos três aspectos: o ético (no sentido do acolhimento ao estranho), o político (abertura de possibilidades, o “eu posso”) e o antropológico (lugar social, cultural).

Do ponto de vista ético, do feminino, daquilo que é íntimo, como o afeto; a mulher o vivencia de uma forma muito especial. Por exemplo, em relação à experiência de perda, uma das mais difícieis de nossas vidas, a mulher a vive sem negá-la, ela a assume na forma da generosidade, doando vida, a qual, entretanto, não pode se apegar, tal qual na maternidade. E mesmo sabendo que este filho não é para ela, ou que se mostra diferente, estranho ao esperado, o acolhe sem nada esperar, pura gratuidade.

Nada mais estranho do que ser mulher, vivendo a todo instante o imprevisível, o incompreensível, o não lógico, se deparando com seu próprio estranho e deixando-se por ele guiar.

Já, do ponto de vista antropológico, daquilo que é social, a mulher é a guardiã das instituições, a começar pela família. Se a família moderna mudou, a mulher teve papel importante nisso, sobretudo por haver assumido a liderança. Mas, como sempre, reside em suas mãos a habilidade para cultivar, educar, manter.

A mulher, enquanto uma construção cultural, um papel social, também sofreu grandes transformações nas últimas décadas, conquistadas com muita luta, traduzindo-se hoje pelo direito ao voto, liberdade sexual, liberdade de escolha quanto à maternidade, profissionalização e espaço no mercado de trabalho, igualdade de direitos, saindo gradativamente do lugar secundário que ocupou por milênios na história da humanidade. Mas ainda há muito por fazer.

E ainda, do ponto de vista do que é político e inovador, a mulher tem uma forma peculiar de desejar: domina sem aniquilar, cria sem subordinar tudo a uma lei ou ordem totalitária. A mulher sabe exercer o poder de forma plural. Porém, o ”eu posso” de difícil autorização em função das inibições criadas em uma sociedade machista, é nosso grande desafio.

A mulher é sensível, extremamente intuitiva, sabe cuidar com generosidade, mas não pode esquecer que também deseja, e que aí reside o seu verdadeiro poder.  

Rosane Lorena Müller-Granzotto*

*Psisóloga e Gestalt-terapeuta no Instituto Müller-Granzotto

Um comentário: